Li um artigo em uma conceituada revista de gestão assinado por um consultor, palestrante e ex-executivo de uma grande empresa nacional. O articulista defende que características do líder são eminentemente masculinas e outras femininas. E conclui que as “propriedades masculinas e femininas, operando em harmonia, melhoram o futuro”.
Características, propriedades, competências… sejam quais forem, operando em harmonia é, de fato, o que devemos buscar para as nossas equipes e para nós mesmos.
Características dos gêneros
O que gostaria de discutir aqui é se certas caraterísticas podem ser atribuídas a determinado gênero.
No artigo traz a afirmação que características como autoconfiança, estabilidade, segurança, senso de direção e escolha são masculinas. Enquanto expressar sentimentos (até aqueles que exponha nossa vulnerabilidade), busca de significado como norte, criatividade e mudança seriam femininas.
Importante registrar que em nenhum momento o articulista afirmou que essas capacidades estariam presentes mais no homem ou mais nas mulheres. Pelo contrário, ele diz que essas características estão presentes em ambos os sexos.
Femininas ou masculinas
O que causa espécie é o fato dessas características humanas serem divididas em femininas e masculinas. E isso não é mérito só desse consultor. Encontrarmos várias referências a essa divisão na literatura.
O modelo das dimensões culturais de Hofstede[1] é um quadro-referência que descreve cinco tipos de diferenças/perspectivas de valores entre as culturas nacionais. Entre eles encontra-se a dimensão da masculinidade versus feminilidade, que indica como se dá a distribuição de papéis entre os sexos naquela cultura.
O autor afirma que a masculinidade está relacionada à competição, ao posicionamento afirmativo, a aquisição de dinheiro e de coisas. Já a feminilidade valoriza as relações entre as pessoas, preocupação com o próximo e a qualidade de vida global.
O feminino e o masculino não seria uma construção cultural?
Veja que o pensamento do ex-executivo brasileiro se aproxima muito da visão do psicólogo holandês. Aquele afirma que estabilidade e continuidade; senso de propósito; decisão; força e segurança; concreto; racionalidade; análise e objetividade estão ligadas ao masculino. Em contrapartida o feminino está relacionado com o viver, com o despertar para luz do dia e com a experiência de estar vivo. Cuidar e nutrir. Abstrato, intuitivo, difuso e subjetivo.
Questiono-me se não há machismo nestas conclusões. Dois aspectos me chamam a atenção.
Agrupamento A e Agrupamento B
Primeiro, se essas características estão presentes tanto no homem como na mulher, por que agrupá-las em masculino e feminino? Porque as voltadas para o subjetivo, intuição, abstrato, relacionamento, preocupação com o outro são femininas?
Posso afirmar que as mulheres próximas a mim, tanto nos relacionamentos profissionais como os familiares e de amizade, não apresentam essas características mais que os homens.
Gênero versus Metas e Resultados
As duas frases a seguir, extraídas do texto não encontram ressonância no mundo corporativo em que vivo.
“O masculino quer se comprometer com metas e resultados, enquanto o feminino quer viver significado, sentido é experimentar seus valores mais profundos”.
O feminino espera o seu destino, é receptivo aos resultados que virão e confia no fluxo da vida.
Não observo nenhuma relação com o gênero o comprometimento com metas e resultados. E, mais uma vez afirmo. As mulheres que conheço não esperam o seu destino. Pelo contrário. Elas, que pese a falta de equidade, assumem as rédeas das suas vidas e o constrói dia após dia. Que pese, também, os esforços das mulheres para se destacar no trabalho serem substancialmente maiores.
O gênero e a liderança
Segundo, é possível que algumas dessas características sejam mais comuns nas mulheres. Entretanto, antes de assumir que elas são femininas, cabe uma pergunta: por que elas aparecem mais nas mulheres?
Parece-me razoável crer que se o homem, por milhares de anos, fosse considerado inferior na sociedade e para ele tivesse sido reservado como principal papel o cuidado com a prole, Hofstade e o nosso articulista nacional teriam conclusões completamente diferente das aqui apresentadas.
Fica a reflexão: quanto das características de um líder tem ligação com o gênero? Quanto do que chamamos hoje de masculino e feminino não são construções culturais? Quanto não reproduzimos, inconscientemente o machismo no mundo corporativo?
Será que os articulistas citados leram Simone de Beauvoir? Será que se nasce mulher, ou torna-se?
[1] HOFSTEDE, Geert. Culture’s consequences: comparing values, behaviors, institutions and organizations across nations. 2. Ed. Thousand Oaks: Sage, 2001.